Por muitos anos tenho exercitado a observação de igrejas e seus ministérios pastorais. Já vi congregações de todos os tipos — desde as mais cheias até as mais vazias. Algumas mais centralizadas nas Escrituras, outras nem tanto. E uma pergunta sempre me vinha à mente:
“Até que ponto a fidelidade parcial às Escrituras pode interferir em uma plantação ou no pastoreio de uma igreja?”
É claro que muitos irão dizer: “Sem fidelidade bíblica, nenhum trabalho vai dar certo”. Sim, disso eu sei. Mas o grande problema é que todos acham que sua igreja e sua teologia são fiéis às Escrituras. Nenhum pastor, em sã consciência, irá dizer que é um herege ou que não é fiel à Bíblia.
Então, por que existem tantas igrejas — senão a grande maioria — que são praticamente irrelevantes na cidade onde estão? Se são bíblicas, por que não impactam a comunidade em que se encontram? Se são fiéis e fundamentadas nas Escrituras, por que não vemos seus membros praticando o que é ensinado nas escolas dominicais? Já pensaram nisso?
Em outras palavras, precisamos saber se a Palavra de Deus é suficiente, normativa e central na edificação da Igreja, ou se pode ser tratada como algo secundário ou negociável. Vejamos esse ponto por três ângulos: teológico, histórico e pastoral.
1. A Escritura como Fundamento Intransigente da Igreja
Calvino, em suas Institutas, afirma categoricamente que “a verdadeira Igreja é aquela em que a Palavra de Deus é pregada com pureza e os sacramentos são administrados conforme a instituição de Cristo”. Isso significa que uma plantação de igreja que opera com fidelidade apenas parcial às Escrituras já começa com o alicerce comprometido.
Essa fidelidade parcial pode ocorrer por omissão (o que não se ensina), por distorção (o que se ensina de modo errado) ou por substituição (o que se coloca no lugar da Escritura). Um exemplo prático disso é quando uma liderança declara fidelidade bíblica, mas fecha os olhos ao colocar membros inaptos em cargos de liderança, como presbíteros e diáconos. Existem igrejas com presbíteros que servem a Santa Ceia enquanto suas esposas não são convertidas, e anciãos que dão a bênção apostólica sem terem sido consagrados ao ofício pastoral.
Todos esses desvios são, segundo Calvino, uma forma de “apostasia prática”, pois negam à Palavra seu direito exclusivo de reger a vida da Igreja.
“Tirar da Escritura qualquer parte de sua autoridade é rasgar o véu do templo que revela a face de Deus aos homens.” — João Calvino
2. As Consequências Históricas da Infidelidade Parcial
Historicamente, a negligência parcial das Escrituras tem levado à degeneração das igrejas — seja pelo liberalismo teológico, que rejeita a inerrância bíblica, seja pelo pragmatismo, que adapta a mensagem ao gosto do público.
A Igreja de Corinto, por exemplo, era marcada por dons espirituais em abundância, mas, segundo o apóstolo Paulo, sofria por ignorar aspectos centrais do evangelho, como a cruz de Cristo e a santidade prática:
“A minha linguagem e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder” (1Co 2.4).
Simon Kistemaker, ao comentar Atos dos Apóstolos, observa que a pureza doutrinária da igreja primitiva era acompanhada por um poder espiritual visível, mas que a entrada de distorções levou ao enfraquecimento do testemunho. Não é coincidência que as cartas pastorais de Paulo insistam tanto na “sã doutrina” como pilar para líderes e para o povo (1Tm 1.3-11; Tt 1.9).
3. O Risco Pastoral: Construir sem o Alicerce de Cristo
Do ponto de vista pastoral, uma plantação de igreja baseada em “meias verdades” escriturísticas é como construir uma casa sobre areia:
“E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia” (Mt 7.26).
A superficialidade na doutrina leva à superficialidade na fé. Lawson, ao descrever a pregação de Calvino, afirma:
“Para Calvino, não havia igreja sem pregação fiel. O púlpito era o trono de Deus entre o Seu povo.”
Assim, negligenciar partes da Escritura — por medo de ofender, por modismos culturais ou por conveniência institucional — conduz a uma comunidade que pode até crescer numericamente, mas carece da presença transformadora do Espírito, cuja instrumentalidade primária é a Palavra (Ef 6.17).
O resultado é uma igreja fraca teologicamente, desprovida de autoridade espiritual para ser sal e luz na cidade. Dessa forma, ventos de heresias e distorções teológicas facilmente penetram e se espalham.
Descobrindo os Fundamentos
Na época de Calvino não existia o termo “plantação de igrejas”, mas já havia critérios fundamentais para que uma igreja bíblica fosse erigida em uma comunidade. Apresento aqui quatro critérios para identificar se uma igreja ou ministério tem fundamentos total ou parcialmente bíblicos.
1. A Igreja como “Mãe dos Crentes” – Fundamento Teológico
Calvino inicia sua doutrina da Igreja com a famosa definição:
“Aqueles a quem Deus é Pai, a Igreja é também Mãe” (Institutas, IV.1.1).
A igreja verdadeira, segundo ele, é o meio ordinário pelo qual Deus regenera, nutre e preserva os seus eleitos. Logo, a plantação de uma igreja não é um projeto humano, mas uma extensão do chamado divino para reunir os santos por meio da Palavra e dos sacramentos.
Essa compreensão exclui modelos meramente institucionais, pragmáticos ou centrados no carisma humano. Uma igreja só nasce verdadeiramente onde Cristo é formado no coração dos homens pelo ministério legítimo da Palavra e do Espírito (Gl 4.19).
2. As Notas da Verdadeira Igreja – Critérios Essenciais
Calvino estabelece dois sinais fundamentais para se reconhecer uma verdadeira igreja:
a. Pregação pura da Palavra de Deus
“Onde quer que se observe a pregação pura da Palavra de Deus… aí, sem dúvida, está uma Igreja de Deus” (Institutas, IV.1.9).
Essa pregação deve ser:
- Expositiva e cristocêntrica, não moralista ou meramente devocional;
- Fiel ao cânon bíblico, não fundamentada em tradições humanas ou revelações privadas;
- Aplicável à vida, conduzindo à piedade e à reforma pessoal, reconhecendo que os preceitos bíblicos são normativos.
b. Administração correta dos sacramentos
“[…] e a administração correta dos sacramentos conforme a instituição de Cristo” (Institutas, IV.1.9).
Isto exclui práticas supersticiosas, inovações litúrgicas não autorizadas e negligência na administração da Ceia e do Batismo. Para Calvino, os sacramentos são selos visíveis do pacto da graça, indispensáveis à edificação do povo de Deus.
3. A Necessidade do Governo e da Disciplina Eclesiástica
Calvino via a disciplina como parte essencial da pureza da Igreja, afirmando:
“A Igreja que despreza a correção dos pecadores perde sua autoridade espiritual” (Institutas, IV.12.1-5).
A plantação de uma igreja, portanto, exige:
- Liderança pastoral bíblica, constituída por presbíteros fiéis, cujas famílias sejam exemplo na comunidade (cf. 1Tm 3.4-5);
- Sistema de governo colegiado, não dominado por um único líder;
- Disciplina amorosa e firme, visando o arrependimento e não a punição.
4. O Ministério como Instrumento de Deus
Calvino afirma que o ministério da Palavra é o principal meio pelo qual Deus governa a Sua Igreja (Institutas, IV.3.1). Assim, uma igreja não pode ser legitimamente plantada sem:
- Pastores chamados e preparados;
- Pregadores comprometidos com a Escritura e dependentes do Espírito;
- Consciência de que o ministério é serviço, não carreira.
Conclusão: A Igreja é Plantada por Deus, não pelos Homens
Por mais que muitos líderes saibam e preguem que a Igreja é plantada e pertence a Deus, alguns ainda creem que podem obter parte da glória que pertence somente a Ele. Reconhecer nosso papel como servos, e não senhores da obra, nos trará graça e misericórdia enquanto realizamos a tarefa de pregar fielmente as Escrituras, independentemente do que a sociedade deseje ouvir.
Quatro pontos são obrigatórios para um ministério legítimo:
- Fundamento doutrinário sólido — a Escritura como única regra de fé e prática;
- Ministério legítimo, ordenado e dependente de Cristo;
- Administração fiel dos sacramentos e disciplina bíblica;
- Compromisso com a santidade e unidade da Igreja visível, mesmo que imperfeita.
“Eu plantei, Apolo regou; mas Deus é quem deu o crescimento” (1Co 3.6).
Qualquer outro fundamento além de Cristo e Sua Palavra é areia movediça, ainda que ostente números, carisma e relevância cultural.